Com vacina e tratamento, tuberculose ainda é problema grave no Brasil

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A tuberculose é uma das 10 principais causas de morte no mundo. Apesar de existir vacina, e de tratamento e cura serem possíveis há mais de 60 anos, 10 milhões de novos casos surgiram em 2019, com 1,4 milhão de mortes, segundo a Organização Mundial da Saúde.

“No mundo, há 30 países que correspondem a 90% dos casos de tuberculose, e o Brasil está nessa lista”, aponta Mellina Yamamura, docente do Departamento de Enfermagem (DEnf) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e integrante da Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose (Rede-TB). Dados do Ministério da Saúde indicam 73.865 casos em 2019 no País, com queda de 15% no diagnóstico. No mundo, estima-se que três milhões dos casos não foram diagnosticados no mesmo período, e a falta de diagnóstico configura, assim, um dos principais desafios no combate à doença, que deve se agravar ainda mais na pandemia de Covid-19.

Simone Protti-Zanatta, também docente do DEnf e integrante da Rede-TB, explica que são dois os principais motivos para atraso no diagnóstico: a busca tardia por atendimento e o fato da doença não ser considerada uma possibilidade por profissionais de saúde. “Geralmente as pessoas acometidas pela tuberculose têm febre há mais de um mês, ao final da tarde, não tão alta, além de suador noturno e cansaço. Ela acomete mais jovens adultos homens, entre 40 e 50 anos, e como os sintomas são inicialmente brandos, existe a demora pela procura do serviço de saúde”, pontua. Outros sintomas da doença incluem produção de catarro, dor no peito, falta de apetite, emagrecimento e escarro com sangue.

A pesquisadora explica que o processo de diagnóstico da doença, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, mais conhecido como bacilo de Koch, é simples, rápido e confiável. A dificuldade muitas vezes está na cultura dos profissionais, de não cogitarem a tuberculose como uma realidade atual e, portanto, não solicitarem os exames. E o cenário deve estar pior em 2021. “Com a Covid-19, os serviços de saúde estão lotados, com escassez de profissionais, que estão esgotados. A Atenção Primária, responsável pela vigilância, não consegue alimentar o sistema e manter o olhar para doenças como a tuberculose, o que dificulta ainda mais o diagnóstico precoce e, consequentemente, o tratamento”, explica Protti-Zanatta.

Um outro desafio é a adesão a tratamento, que envolve uma combinação de medicamentos – oferecidos gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) -, que precisam ser tomados por seis meses. “Muitas vezes o procedimento não é levado à risca, e os efeitos colaterais podem ser desencorajadores. Além disso, é comum que a pessoa sinta melhora em poucos dias e abandone os medicamentos, o que faz com que o bacilo se torne ainda mais resistente e dificulta o combate à doença”, detalha a pesquisadora.

Uma pessoa com tuberculose pode contaminar entre 10 a 15 pessoas ao redor. Se ela for diagnosticada precocemente e seguir com o tratamento, deixa de transmiti-la. No entanto, a cura só vem depois dos seis meses. “Se a pessoa abandona o tratamento, ela segue espalhando a doença, já que a transmissão é por vias aéreas, como na tosse, espirro ou fala. Assim, continua a cadeia de transmissão, e ela mesma pode criar resistência à doença e ter o quadro agravado. Se não quebrarmos essa cadeia, não sairemos desse círculo preocupante”, pondera Yamamura.

Principais desafios

As docentes da UFSCar lideram o Grupo de Estudos Operacionais em Doenças Negligenciadas e Emergentes (Geodone), certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e formado por estudantes de graduação, mestrado e doutorado, com o objetivo de melhor compreender as doenças emergentes e como combatê-las.

As pesquisas realizadas pelo grupo destacam três desafios no que diz respeito à tuberculose: o enfrentamento da doença junto à população em situação de rua, a tuberculose multidroga-resistente e o financiamento de pesquisas na área, cada vez mais escasso.

A tuberculose comumente atinge as camadas da população com maior desvantagem social, acometendo pessoas em situação de vulnerabilidade, e muito especialmente a população em situação de rua, que, segundo Protti-Zanata, tem 67 vezes mais probabilidade de adquirir a doença. Na tentativa de diminuir esse índice e de oferecer assistência em saúde a essa população vulnerável, foram criados os consultórios na rua. “A iniciativa oferece equipes compostas por médicos, enfermeiros, agentes de saúde e comunitários, técnicos de enfermagem e assistentes sociais, focados em atender essa população – tanto para doenças negligenciadas, como para doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e hipertensão”, explica a docente da UFSCar.

A pesquisadora ressalta que, apesar dos consultórios na rua auxiliarem no atendimento e no acompanhamento do quadro de saúde dessas pessoas, ainda existem muitos desafios. “No caso da tuberculose, é difícil acompanhar o tratamento dessas pessoas, pois ele é longo e muitas delas são itinerantes, acabam mudando ou até são obrigadas a mudar por questões políticas locais, o que faz com que o acesso a elas fique ainda mais difícil”, descreve Protti-Zanatta. Além disso, o maior e mais importante desafio é ter gestores – municipais, estaduais e federais – sensibilizados com a problemática.

Por fim, outra questão crítica no enfrentamento da doença é a tuberculose multidroga-resistente. “Além das pessoas que descontinuaram o tratamento, há pessoas que são resistentes às drogas já no início do tratamento, ou desenvolvem resistência durante, mesmo sem descontinuidade, pois adquirem as cepas já resistentes”, situa Yamamura.

São casos muito semelhantes ao que estamos vivenciando com a Covid-19. “Apesar da tuberculose ser causada por bactéria, e a Covid-19 por um vírus, a situação se torna extremamente agravada, pois pode haver, para a tuberculose, uma resistência aos antimicrobianos, o que faz com que a pessoa não responda ao tratamento. Por isso, é essencial tentarmos controlar a transmissão, para que não vivenciemos uma tragédia ainda maior com essas novas cepas”, alerta a docente.

Para as pesquisadoras da UFSCar, um caminho para enfrentar a situação da tuberculose no Brasil envolve unir esforços para empoderar as pessoas – tanto profissionais de saúde como a sociedade como um todo, por meio de campanhas de conscientização. O investimento em pesquisas também é essencial, inclusive para melhor compreensão do cenário atual da doença e consequentes tentativas de sensibilização de governantes e gestores da área.

Para articular pesquisadores, o Geodone tem parcerias com diversas instituições, como a própria Rede-TB; o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), a Faculdade de Saúde Pública e a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP), sendo essas últimas três da Universidade de São Paulo (USP); além de se articularem com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e, em São Carlos, mais especificamente com o Centro de Atendimento a Infecções Crônicas (Caic), vinculado à Prefeitura Municipal.

No entanto, atualmente, o severo corte de verbas é mais um dificultador a ser enfrentado. “Os editais não estão contemplando nossas pesquisas, o que nos preocupa. A Ciência envolve vários aspectos, e nós trabalhamos com a temática para oferecer subsídios ao planejamento de ações estratégicas, de saúde e de controle da doença. Apesar disso, as pesquisas estão perdendo cada vez mais o incentivo”, lamenta Protti-Zanatta.

Fonte: NEWSLAB

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