Covid-19 também pode ser considerada também uma doença vascular?

No artigo Endothelial Dysfunction and Thrombosis in Patients With Covid-19, foi observado que os indivíduos infectados pela enfermidade apresentam uma lesão de célula endotelial (célula que reveste o vaso).

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Além de ser uma enfermidade pulmonar, a Covid-19 já está sendo considerada uma doença vascular, graças aos resultados de dois estudos realizados por cientistas brasileiros.

Um grupo de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) foi o responsável por três pesquisas publicadas em veículos científicos internacionais, que trouxeram resultados importantes.

Uma dessas pesquisas foi realizada examinando amostras de pacientes que vieram a óbito pela doença, sendo constatada a presença de lesões nas células que revestem vasos sanguíneos dos pulmões, o que pode levar a um quadro de trombose.

Em 90% dos casos, essa condição atinge os membros inferiores, gerando grande desconforto aos pacientes. Mas ainda há o risco de um fragmento do coágulo se desprender e entrar na corrente sanguínea, em direção aos pulmões, provocando um quadro de embolia pulmonar, o que pode levar ao óbito.

“Observamos em um dos nossos artigos que a Covid-19 não é só uma doença pulmonar, mas sim uma doença vascular e, portanto, sistêmica. Em outro dos nossos artigos vimos que o mastócito, uma célula envolvida com processos alérgicos, pode estar iniciando e propagando o processo inflamatório envolvido na lesão pulmonar e vascular da Covid-19. Já um terceiro artigo elucida como os pacientes que sobrevivem ao novo coronavírus podem desenvolver fibrose pulmonar”, explica a médica patologista PhD Lúcia de Noronha, professora titular da Escola de Medicina da PUCPR e uma das responsáveis pelas pesquisas, em entrevista ao Portal PEBMED.

As pesquisas do grupo ainda estão em andamento. Estão sendo utilizados métodos anatomopatológicos e imuno histoquímicos para analisar amostras pulmonares e de outros órgãos de pacientes que vieram a óbito por Covid-19.

Para a pesquisadora, as descobertas podem ajudar aos intensivistas a instituir medidas terapêuticas mais efetivas, aumentando as chances dos pacientes sobreviverem, como o uso da anticoagulação por exemplo.

Foco nos vasos

Em seguida, os pesquisadores buscaram compreender como essa lesão vascular aparece e se relaciona à Covid-19, e ainda como ela pode ocasionar a trombose, levando o paciente ao óbito.

Para tanto foram analisadas amostras post mortem de pacientes com idade média de 75 anos e que apresentavam comorbidades, como hipertensão arterial, diabetes e obesidade.

“Os resultados demonstraram que o endotélio, que reveste os vasos, estava sendo lesado pelo vírus e, consequentemente, pela inflamação causada por ele. Além disso, conseguimos esclarecer parte dos mecanismos dessa lesão”, afirma Lúcia de Noronha, professora da Escola de Medicina da PUC-PR, uma das responsáveis pelas pesquisas.

O estudo sugere que o uso de anticoagulantes precocemente pode ajudar no tratamento da Covid-19, com a finalidade de evitar os trombos.

Foco nos pulmões

Já o artigo Mast cell degranulation in alveolar septa and SARS-CoV-2-: a pathogenic pathway linking interstitial edema to immunothrombosis foi baseado na contagem dos mastócitos, células ligadas a reações alérgicas, nos pulmões de pacientes com a Covid-19 para compará-los com outras doenças e entender qual o papel dessas células nestas infecções.

Segundo a pesquisadora, os resultados mostraram que as pessoas infectadas com a Covid-19 têm mais mastócitos do que pacientes com outros tipos de doenças respiratórias, como a H1N1. Isso sugere que a célula pode ter um papel na evolução da enfermidade e ajuda a compreender como a Covid-19 provoca lesões nos pulmões e em outros órgãos, como o coração.

“A descoberta também pode ajudar no tratamento da doença, pois indica que talvez possamos utilizar medicamentos que estabilizem os mastócitos. Isso porque o vírus parece causar uma desestabilização nestas células, que passam a liberar grânulos ricos em substâncias que agravam o processo inflamatório, a lesão vascular e propiciam a trombose”, explica Lúcia de Noronha.

Pesquisas em construção

Todas essas pesquisas estão inseridas em um projeto maior do Hospital Marcelino Champagnat, do Grupo Marista, sobre o novo coronavírus. Há estudos envolvendo tanto análises de amostras post mortem como pesquisas com pacientes que sobreviveram, assim como estudos de imagem e dados clínicos.

A ideia é que haja um aprofundamento cada vez maior a respeito da doença que infectou mais de 4 milhões de brasileiros para que, em um futuro próximo, o tratamento possa ser mais eficaz.

“Estamos nos concentrando em ampliar as nossas amostras, ampliar os nossos métodos a fim de melhorar as nossas descobertas e também vamos estudar amostras de soro de pacientes que se recuperaram da Covid-19, para comparar com os achados dos que foram a óbito”, adianta Lúcia.

FONTE: PEBMED

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