A escalada do Glaucoma em conjunto com o envelhecimento da população

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No Brasil a situação é alarmante, com  escassez de dados atualizados e confiáveis sobre a trajetória da doença, que se tornou tema central da Campanha Abril Marrom neste ano, ação que objetiva a prevenção e o combate das variadas conformações de cegueira.

O glaucoma é a causa principal de cegueira permanente e, em uma projeção realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), afetará cerca de 111,5 milhões de pessoas em 2040.

Em estudos recentes, especialistas do Conselho Brasileiro de Oftalmologia analisaram os impactos do glaucoma na condução de veículos, visando perceber a relação entre o comprometimento visual provocado pela doença e o aumento no risco de acidentes.

Em um dos estudos avaliou-se a influência da mistura de objetos apresentados muito próximos que dificulta a visualização, o chamado crowding (aglomeração) nos glaucomatosos.

“O crowding estabelece um limite fundamental para as capacidades da visão periférica e é essencial para explicar o desempenho em uma ampla gama de tarefas diárias”, explica Nara, que um também foi uma das autoras do trabalho.

“E, devido aos efeitos do glaucoma justamente na visão periférica, hipotetizamos que a perda neural na doença levaria a implicações mais fortes do apinhamento visual, o que foi confirmado”, complementa.

O experimento publicado na edição de fevereiro do jornal Investigative Ophthalmology & Visual Science (IOVS), da The Association for Research in Vision and Ophthalmology (Arvo), concluiu que mesmo nos estágios mais iniciais da doença, os enfermos apresentavam uma maior dificuldade na discriminação dos itens.

Outro estudo, realizado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia observou a capacidade de dividir atenção entre dirigir e conversar no celular, cenário que, apesar de contra a lei pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), é muito rotineiro para grande parte da população. A finalidade era analisar a performance dos portadores de glaucoma nessas ocorrências.

Os resultados mostram que a reação a estímulos visuais periféricos entre pacientes de glaucoma é pior de maneiro muito significativa. Durante o uso dos telefones, o tempo de reação foi de 1,86 segundos enquanto que no grupo controle ( pessoas saudáveis) esse número caia para 1,14.

Não existe proibição para portadores da doença dirigirem, entretanto o risco de acidentes aumentam e isso deve ser notificado ao paciente que de preferência consulte um médico para decidir se deve continuar a conduzir.

Este estudo foi apresentado no último congresso da Sociedade Americana de Glaucoma, em Nova York, Estados Unidos, e sua publicação foi realizada este mês na revista científica Jama, da AMA (American Medical Associativo).

O glaucoma é uma doença crônica e degenerativa, que ataca o nervo óptico e é usualmente associada ao aumento da pressão intraocular. Esse fenômeno provoca a perda progressiva da visão periférica, estreitando o campo visual.

O que sabemos é que nos últimos anos tem havido mais casos por causa do envelhecimento da população e por se fazer mais diagnóstico hoje do que no passado”, afirma Nara Gravina Ogata, especialista em glaucoma infantil e adulto pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

“É uma doença bem silenciosa. Se instala e vai progredindo lentamente, durante meses ou anos, sem a pessoa perceber. O problema é que, quando recebe o diagnóstico, o nervo óptico costuma estar bem danificado e a visão periférica já muito comprometida”, explica a especialista.

A enfermidade assume múltiplas origens, tendo a genética como uma das suas principais causas. Descendentes de portadores de glaucoma possuem chance de 6 a 10 vezes maior de desenvolver a patologia em comparação com o resto da população.

O avançar da idade é outro fator que eleva os riscos, no geral, aumentando a incidência a partir dos 40 anos. Para 80 anos, o risco sobe até 7,5%.

O uso de colírios com corticóides sem acompanhamento médico e de forma indiscriminada, também são fatores de risco já que podem causar o aumento da pressão intraocular.

Para cardiopatas, vítimas de trauma ou lesão na região ocular, diabéticos e pessoas de etnia africana ou asiática, os cuidados devem ser dobrados.

O Ministério da Saúde afirma que a ocorrência da doença é três vezes maior em latinos e afrodescendentes em relação aos caucasianos, e a chance de desenvolver cegueira cresce em seis vezes mais.

Na maioria dos casos o tipo é assintomático, o diagnóstico é realizado em consulta oftalmológica de rotina e, de acordo com Nara, é imprescindível que a medição da pressão intraocular seja feita o quanto antes em conjunto com o exame de fundo de olho (para analisar estado e funcionamento do nervo óptico).

“Dependendo do caso, também podem ser necessários mais alguns testes, como campimetria computadorizada (avalia os defeitos do campo visual), paquimetria ultrassônica (mede a espessura da córnea), tomografia de coerência óptica (verifica as estruturas da retina e do nervo óptico) e retinografia (checa possíveis alterações no fundo do olho)”, complementa a médica.

Pessoas com mais de 40 anos e quem possui histórico familiar de glaucoma devem procurar o atendimento oftalmológico frequentemente. A avaliação determina a periodicidade das visitar e analisa os fatores de risco.

O tipo primário, assintomático (representando 80% dos diagnósticos), acometido por pessoas que ultrapassaram os 40 anos de idade e geralmente é causado por um mal funcionamento do ângulo de drenagem ocular. Isso compromete a vazão do humor aquoso e provoca um aumento de pressão intraocular, a perda de visão ocorre primeiramente nas extremidades do campo de visão e , deixada sem tratamento, terminam por danificar toda a visão.

Mas além dele existem, por exemplo:

O primário de ângulo fechado, muito ocorrente em asiáticos e pessoas com hipermetropia, ocorre quando o ângulo de drenagem é totalmente bloqueado e impede a vazão do humor aquoso. Essa forma gera visão turva e forte dor nos olhos, sintomas causados pelo aumento súbito de pressão.

A forma congênita, ocorre por uma má formação do sistema de drenagem ocular podendo se manifestar logo após o nascimento ou mais tardiamente na infância. Os sintomas reúnem olhos azulados e sem brilho, fotofobia, lacrimejamento e aumento no tamanho do globo ocular.

“Este é um tipo pouco frequente, mas é fundamental o diagnóstico precoce para tratamento imediato”, explica Wilma Lelis Barboza, oftalmologista membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG).

“O teste do olhinho (reflexo vermelho), obrigatório em algumas cidades, é a oportunidade perfeita para o pediatra avaliar possíveis doenças oculares em recém-nascidos”, concluí Wilma.

O glaucoma de pressão normal se distingue pelo dano no nervo óptico ocorrer sem que a pressão intraocular suba. De causas desconhecidas, a enfermidade pode ter relação com problemas vasculares.

Outra conformação seria o glaucoma secundário, que é gerado por fatores externos tendo como exemplo: trauma, inflamações e uso indiscriminado de colírios com corticóides por tempo prolongado.

Têm-se ainda o glaucoma pigmentar, provocadoo por oclusão do ângulo de drenagem que se desprende da íris, e o glacuma pseudoesfoliativo ocasionado por obstrução do sistema de drenagem do humor aquoso em decorrência da deposição anormal de fibrilares.

“É uma doença crônica e progressiva, e o objetivo do tratamento, qualquer que seja ele, é estabilizá-la, mas ele não fará com que o paciente recupere a visão perdida. De toda forma, mesmo os casos avançados, quando há perda importante da visão, precisam ser tratados de forma regular, a fim de evitar a cegueira”, assegura Wilma Lelis Barboza, da SBG.

Não existe cura para o glaucoma, porém as formas de tratamento fornecem um controle da doença para melhora na qualidade de vida dos pacientes.

Procedimentos cirúrgicos e clínicos, podem ser combinadas ou não para melhorar esse controle. O primeiro passo normalmente começa com a aplicação de colírios específicos diariamente, como por exemplo: análogos da prostaglandina (travoprosta, bimatoprosta e latanoprosta), beta bloqueadores (maleato de timolol), inibidores da anidrase carbônica (cloridrato de dorzolamida) e agonistas de receptores adrenérgicos (tartarato de brimonidina). O uso dessas soluções pode ser separado ou combinado.

Terapias de laser também se mostram eficazes quando necessárias, como por exemplo, na fase inicial do glaucoma de ângulo fechado.

Cirurgias são aplicadas apenas em 10% das ocorrências e em tipos congênitos.

A presidente da SBG afirma que, “Por não perceberem a evolução da doença, muitos pacientes tendem a negligenciar a administração dos remédios”. Portanto a adesão as terapias é importantíssimo para o sucesso da operação, visto que, o tratamento é contínuo e sem prazo determinado para cessar.

Fonte: BBC

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